Uma das áreas mais fascinantes da oncologia atual é o reposicionamento de medicamentos (drug repurposing): o estudo de fármacos já conhecidos e utilizados para outras doenças que podem apresentar efeitos adicionais potencialmente úteis contra o câncer.
Se você se interessa por atualidades na abordagem do Câncer, vale a pena conhecer o Care Oncology Protocol (COC), um protocolo de terapia metabólica adjuvante desenvolvido por oncologistas clínicos e pesquisadores no Reino Unido, baseado justamente nesse conceito de reposicionamento de fármacos, utilizando medicamentos como Metformina, atorvastatina, Doxiciclina e Mebendazol.
Mas, afinal… por que um antibiótico poderia despertar interesse na pesquisa em câncer?
A doxiciclina vem sendo estudada por apresentar um mecanismo de ação bastante diferente daquele da maioria dos tratamentos convencionais. Enquanto a quimioterapia tradicional busca eliminar principalmente as células tumorais que apresentam rápida divisão celular (a maior parte da massa tumoral), estudos sugerem que a doxiciclina possa interferir no metabolismo de uma subpopulação de células conhecida como células-tronco tumorais (Cancer Stem Cells – CSCs).
Essas células representam apenas uma pequena fração do tumor, mas são consideradas por muitos pesquisadores um dos principais mecanismos envolvidos na resistência ao tratamento, na recorrência da doença e no desenvolvimento de metástases. Como frequentemente permanecem em estado de divisão lenta, podem sobreviver à quimioterapia e à radioterapia e, posteriormente, voltar a dar origem ao crescimento tumoral.
Em outras palavras, funcionariam como verdadeiras “sementes” do câncer. O calcanhar de Aquiles das células-tronco tumorais: a mitocôndria
Para compreender essa hipótese, precisamos recorrer à biologia evolutiva.
Diversos estudos sugerem que muitas células-tronco tumorais apresentam elevada dependência da fosforilação oxidativa (OXPHOS) e da função mitocondrial para manter sua capacidade de sobrevivência, autorrenovação e resistência aos tratamentos.
É justamente aí que a doxiciclina chama a atenção.
Segundo a Teoria Endossimbiótica, aceita pela biologia moderna, milhões de anos atrás, as mitocôndrias eram bactérias independentes que passaram a viver dentro das células ancestrais que deram origem aos organismos complexos.
Por causa dessa origem evolutiva, os ribossomos mitocondriais apresentam grande semelhança estrutural com os ribossomos bacterianos — justamente o alvo clássico da doxiciclina.
Como a doxiciclina poderia agir nos cânceres?
Quando utilizada nesse contexto experimental, a hipótese é que a doxiciclina exerça nas mitocôndrias um efeito semelhante ao que exerce nas bactérias.
1️⃣ Inibição da biogênese mitocondrial: A doxiciclina pode ligar-se aos ribossomos mitocondriais, reduzindo a produção de proteínas essenciais ao funcionamento normal da mitocôndria.
2️⃣ Redução da produção de ATP: Sem essas proteínas, ocorre prejuízo da fosforilação oxidativa (OXPHOS), reduzindo a produção de ATP, a principal moeda energética da célula.
3️⃣ Perda da vantagem metabólica: Diversos estudos sugerem que muitas células-tronco tumorais apresentam menor flexibilidade metabólica do que outras células tumorais, dependendo de forma importante da atividade mitocondrial.
Assim, ao comprometer a função dessas organelas, essas células podem perder parte da capacidade de sobreviver ao estresse, de resistir aos tratamentos, de migrar e de originar novos tumores.
O que mostram os estudos até o momento?
Grande parte das evidências que sustentam esse mecanismo vem de estudos laboratoriais (in vitro), modelos animais e alguns estudos clínicos iniciais.
Os resultados são considerados bastante interessantes por muitos pesquisadores, especialmente porque a doxiciclina é um medicamento conhecido, relativamente barato e com perfil de segurança bem estabelecido quando utilizada nas indicações tradicionais.
Entretanto, ainda são necessários estudos clínicos maiores e mais robustos para definir com maior segurança:
• quais pacientes poderiam se beneficiar;
• em quais tipos de câncer;
• quais doses e tempo de tratamento seriam ideais;
• quais combinações terapêuticas seriam mais eficazes;
• e qual seria o impacto real sobre desfechos importantes, como redução de recorrência, metástases, qualidade de vida e sobrevida.
Embora os mecanismos bioquímicos descritos sejam bastante plausíveis e biologicamente interessantes, isso não significa que sua eficácia clínica já esteja comprovada.
É exatamente por isso que essa estratégia continua sendo objeto de intensa pesquisa na oncologia metabólica.
⚠️ IMPORTANT
A doxiciclina não faz parte do tratamento padrão da maioria dos cânceres.
Seu uso nessa finalidade permanece experimental e/ou adjuvante em contextos específicos, devendo ser sempre avaliado individualmente pela equipe médica responsável.
O objetivo deste post é exclusivamente educativo, mostrando como medicamentos antigos podem revelar mecanismos surpreendentes e abrir novas possibilidades para futuras estratégias terapêuticas.
A ciência avança justamente assim: investigando hipóteses biologicamente plausíveis, confirmando aquelas que realmente funcionam e abandonando as que não demonstram benefício clínico.


